domingo, 15 de abril de 2018

Conselho de Lilith.


Mulheres sempre tiveram de ser caladas. Submissas ao julgo, emburrecidas. Comprimidas num espaço no qual nunca caberiam. Sempre encontrando fios de poder através do insuspeito - da casa, do marido, da prole varonil - por sua habilidade de manipular o disponível.
Guiadas à contrição, desencorajadas ao reconhecimento.

Quando mais evidente esteve seu poder, ameaçador, mais repressivo tornou-se o meio. Foi necessário abatê-las, caçá-las. Quando não mais por putas, por bruxas. Quando não por bruxas, por loucas. E quando não por loucas, por putas.

A maioria de si, com os espelhos mais embaçados, aprisiona-se pelo onipotente e disfarçadamente sutil status criado no início dos tempos, desde a ocultação de Lilith. As que, por brecha às restrições, rebelam-se ao irreconhecimento, buscam ser imagem, refletir, através da luta ou resiliência objetiva.

O fato é: algo temeroso reside na natureza feminina. Algo grande e poderoso que se opõe gradativamente à opressão.


Nos resta a todos a previsível incapacidade de negá-lo.

Be brave or be undone

https://youtu.be/F0kJmsHPT3o


"Be Brave" by Shara Worden

I am a bird in water, a whale on sand
I am the flood, the fire, the oil spill
I’m feeling scared and I am overwhelmed
And so I don my mask and finger bells

Sh-Sh-Sh-Shara now get to work
Sh-Sh-Sh-Sh-Sh-Shara this is going to hurt
Be brave dear one
Be changed or be undone
Be brave dear one
Be-ye changed or be-ye undone, undone

I am a slave, I’m under house arrest
I am the beater, I am beaten for less
Than being punk and feeling anger swell
And so I don my beaded dress and finger bells

It’s so hard, it’s so heavy
To be hungry, to be happy
It’s so light, it’s so easy just to be

It’s so hard, it’s so heavy
To be hungry, to be happy
It’s so light, it’s so easy just to be

Oh God, what would you do with me
Oh God, what’s my responsibility
God, what would you do with me
Oh God, what’s my responsibility

Be brave dear one
Be changed or be undone
Be brave dear one
Be changed, be changed, be changed
Changed

sábado, 13 de janeiro de 2018

Boca Ansiosa




Entortada pra direita, desce a porta entre estalidos, "open the gates!", com suas marcas e rachaduras secas, duas grandes à frente pra dois dentes grandes. Dentes-serra, mal cerrados no metal, finos, turvos, frágeis, lentos e apressados, acetinados no ácido, perigosos, nicotinados mas não mais. Por trás deles o silêncio gordo recua em pânico a língua acuada, em guarda, cobra - ladeada de atritos duros e danificados, "grandes como couves" que crescem e rangem dia e noite. No escuro das paredes, um raio-X de linhas brancas espinhadas, duas espinhas espelhadas de peixes mortos, cicatrizes na carne rosa, riscadas do obscuro até as presas. Carne mole presa na engrenagem do movimento perpétuo, abre-fecha, mexe, sempre mordendo presas. No fim de cada dia, o tremor que escapa é capturado em pequenas jaulas de pretos e brancos, pontos de insistência e sangue contido, detidos antes de saltar da boca ansiosa.



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Encerre o ato.
Por trás das cortinas dos teus olhos se emaranham fragmentos dos bastidores de teus sonhos.
Tudo usado, gasto, com a poeira mal batida do teu ânimo.
O que já foi exibido, criado, recitado no teu palco malamanhado de pantomimas diárias, jaz amontado nos dois cantos onde a luz dos teus holofotes não bate mais.
Encerra teu espetáculo e tudo é recolhido, reavaliado, reutilizado, queimado em fogueiras para espantar tuas traças teimosas.
Te prepara para o outro dia, a próxima bilheteria já está pedindo assentos na fileira da frente, trata de tudo parecer limpo e cálido.
Por último, trata o teu silêncio úmido com respeito, ele é o elemento que segura em pé as paredes do teu teatro, ele unirá do ar os resquícios das personas tuas e as guiará para seu devido lugar nas estreitas coxias do teu enredo.
Tudo está quieto.
Agora, tudo que te resta é a arte esgarçada e insuspeitadamente fajuta respirando por trás de tuas cortinas fechadas.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

The wicked man is old
He fears without realising
A bold, shocking movement rises
The wicked man runs

The buzzing in his ears
He just needs to go
The deaf pounding of a drum
His lighter thought is a stone

He is on a chase
And his heart is the faster
Not knowing a path
Yet not stopping, all haste

The wicked man is mad
Does not rest, sore his feet
For a fire burns his neverhaves
The wicked man has the Death by his heels

quinta-feira, 14 de abril de 2016

4 3 2 1

Sou o apelo, o comedimento, a liberação, aquele olhar.
Sou o toque acidental, o sorriso ao acaso, a graça difusa da idiotice.
Sou o medo que habita o porão do peito e a certeza duvidosa de que tudo é um equívoco.
Sou todo esse desejo contido tremulando no fundo da garganta.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Darkness falls across the land

Anseio por alguém que me fale da escuridão.

Que  tenha  olhos  calmos  de  loucura  e  nos  dedos  o  suave  amargor  de  fumaça.

Preciso que  me  carregue  na   cegueira,   até    romper    a     plasticidade      da       calma.

Que me singularize na seda do silêncio,
conte o que de verdade há na aflição,
o mistério nauseante na massa das horas,
me apresente o voo completo pela casa da noite.

Alguém que me ofereça um café.