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sábado, 13 de janeiro de 2018

Boca Ansiosa




Entortada pra direita, desce a porta entre estalidos, "open the gates!", com suas marcas e rachaduras secas, duas grandes à frente pra dois dentes grandes. Dentes-serra, mal cerrados no metal, finos, turvos, frágeis, lentos e apressados, acetinados no ácido, perigosos, nicotinados mas não mais. Por trás deles o silêncio gordo recua em pânico a língua acuada, em guarda, cobra - ladeada de atritos duros e danificados, "grandes como couves" que crescem e rangem dia e noite. No escuro das paredes, um raio-X de linhas brancas espinhadas, duas espinhas espelhadas de peixes mortos, cicatrizes na carne rosa, riscadas do obscuro até as presas. Carne mole presa na engrenagem do movimento perpétuo, abre-fecha, mexe, sempre mordendo presas. No fim de cada dia, o tremor que escapa é capturado em pequenas jaulas de pretos e brancos, pontos de insistência e sangue contido, detidos antes de saltar da boca ansiosa.



domingo, 13 de dezembro de 2015



No fim das contas, sempre se percebe, naquele momento de êxtase, no meio do nada.
No fim da corrida ela sabia que a escolha era toda dela. Seguir ou estar. Correr ou voltar. O caminho honrável é o do meio, mas ela sempre acabava escolhendo o da esquerda, ou direita, ou mais esquerda ainda, ao que parecia. A carteira de motorista, só deuses sabem como.
Nos raros momentos de alegria ou outra coisa mais escura, tudo que não virava questão capital na metafísica de seus olhos, transmutava-se numa névoa movediça de cantilenas amadurecidas sobre o passado, já que se encontrava numa área kantiana da existência.
Tudo era quase certo até acontecer.
À você que espera, bonne chance. À mim só resta estar no meu ponto habitual, onde ela me encontrará, e beijará. Promessas serão feitas, mas nunca desculpas.
Eu sei que, naquela névoa - entre luz e sombra - ela, sem dizer: "você sabia".


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015



Na ânsia de saber a vida,
me banho em café e fumo meus dedos,
até ver o beco sem saída
no labirinto eterno de certezas e medos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sarau Dama da Noite

A vida é feita de esquecimentos e desilusões, já diria alguma parte fumante de mim.
Eu olho pro lado e penso, ela me vê viver desregradamente dentro da minha cabeça, e nunca diz nada até que o circo tenha se reduzido à cinzas.
Me coloco uma jaqueta pra enfrentar as cifras da noite, e agradeço a mim pelo abrigo. Recuso a dose de nublificante e penso em responder.
Cada vez tuas pernas tão mais fortes, tem de ser. Vais te esquecer disso, certeza. Mas, até lá, respira, olha pra cima. Tem alguém lá.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012


Existem muitas pontes, muitas jornadas a se escolher. Tantas pontes e tudo o que você quer é queimar sua existência, queimar cada ponte, queimar cada gota de motivo, queimar cada pestana desse olhar maldito que te vive. Tudo o que você quer é, com sua piromania, transformar em cinzas todo Fio de Ariadne, transformar todo teu resto em fumaça e faíscas. Você quer ver queimar os olhos que ama, os olhos que odeia, os seus próprios. Queimar até lágrimas. Não te importa que já te seguissem, não te importa o caminho dos outros, nem as almas que queimaria com tua ânsia sanguínea em derrotar tuas pontes. E cada vez que atravessa uma, que cruza uma estrada, que se apóia em uma pedra, cada vez que sua existência infértil encosta e se aproveita de tudo que lhe estende a pata – fogo, fogo é seu único pensamento.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Olhos

E ali Aira chorou. Chorou pra caralho. Como o céu todo chorasse, sua dor e liberdade a contagiaram. Ela chorou como nunca fazia, especialmente tão próxima da sua dor, que sorria junto com ela sem, claramente, perceber. A dor dela havia tempos tinha passado da agonia de roupas pequenas. Ali, naquele dia, a lua dentro dela gritava, com ganas de enlouquecer a realidade, mas Aira sorria. E nadando no aguaceiro que caía do céu, seus próprios olhos afogando, Aira ainda sorria, porque sua dor, tão linda, estava feliz.

segunda-feira, 28 de maio de 2012


De drogas amorfas
fel de pudor
cicuta inerte
dispor de armas
cru o peito
carne que apodrece
sabor mórbido
espasmos imberbes
Carrancas máscaras
alquimia pútrida
domínios impossíveis
de expurgar dor inata
sumo de ira plácida
filho morto
monstro ativo
já putrefata

quarta-feira, 9 de maio de 2012

De mordaça

Muzzles
Ando precisando de algo que não posso pedir. Nunca pediria, e, fazendo-o, não encaixaria mais na minha necessidade.
Preciso, de um jeito mudo.

domingo, 29 de abril de 2012

De como se sentir nada.

Permaneça em casa. Ou saia, não importa.


Ligue a TV. Ou veja bons amigos, não importa.


Coma muito, por um longo dia. Ou não toque num prato, não importa.


Olhe as coisas não feitas. Ou as que não adiantam, não importa.


Faça uma infinidade de coisas. Ou não se mova da cama, não importa.













No final sempre tem aquele gosto azedo de comida passada.
























Porque, enfim,
Não importa.

sábado, 21 de abril de 2012



Devia ter mais disso. Mais janelas esvoaçantes desembocando em vida extra. Mais piqueniques no quarto de hotel. Mais do desapego de meu sonho, que me é vocação. Tantas coisas que me são vida, de formas precisas de me querer ainda.
Por você faria certo. Mas se me necessitar ser-me fiel, urgindo sobrevivência, não se irrite.
Estarei bem, você vai ver.

quarta-feira, 11 de abril de 2012



se calhava de eu escorar no teu ombro, ser perto, como uma pessoa faz, eu podia
mas não consigo, acho estranho só pensar
também acho estranho ser assim, já foi tão fácil, alguma vez
então jogo pra trás a ponta do cachecol surrado dentro do meu peito
e me constranjo de ser isso

terça-feira, 10 de abril de 2012

Não esperava chorar hoje. Mas nessas horas o sono de capricho se atrasa e a mente momentaneamente sem supervisão passeia por onde cuido em não me ater.
Não gosto de chorar porque estou fria e tudo fica muito quente no meu rosto quando choro. Nem gosto desse aperto no peito que me comprime o tórax como se espreme pano de chão. Ou do bolo que sobe a garganta até entupir o nariz.
Não esperava chorar essa noite. Tudo é tão estranho.
Quero dormir.

quarta-feira, 4 de abril de 2012









 

 

*

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sou uma pessoa incrivelmente mais feliz em dias chuvosos



*não são minha autoria

domingo, 25 de março de 2012

Ela era feita de medo, toda ela. Nem parecia. Era uma contradição ambulante. Uma contradição gigantesca, porém fácil, muito fácil de ler. Mas ninguém se interessa em ler nesses tempos. Podia ser mais que uma contradição, afinal, se precisa de força para viver com medo. Medo de olhos bem abertos, medo que sabia o que estava fazendo.
Ela nunca falava nada além do que o medo lhe sussurrava, e sabia, até antes que o medo lhe tomasse como essência, que se o fizesse, ele a envolveria os ombros com um braço frio, mas protetor, desculpando-a por sua besteira. E ela prometeria nunca mais fazer de novo.