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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Encerre o ato.
Por trás das cortinas dos teus olhos se emaranham fragmentos dos bastidores de teus sonhos.
Tudo usado, gasto, com a poeira mal batida do teu ânimo.
O que já foi exibido, criado, recitado no teu palco malamanhado de pantomimas diárias, jaz amontado nos dois cantos onde a luz dos teus holofotes não bate mais.
Encerra teu espetáculo e tudo é recolhido, reavaliado, reutilizado, queimado em fogueiras para espantar tuas traças teimosas.
Te prepara para o outro dia, a próxima bilheteria já está pedindo assentos na fileira da frente, trata de tudo parecer limpo e cálido.
Por último, trata o teu silêncio úmido com respeito, ele é o elemento que segura em pé as paredes do teu teatro, ele unirá do ar os resquícios das personas tuas e as guiará para seu devido lugar nas estreitas coxias do teu enredo.
Tudo está quieto.
Agora, tudo que te resta é a arte esgarçada e insuspeitadamente fajuta respirando por trás de tuas cortinas fechadas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Someday a car stopped in front of my house, when I looked again it was just wind. And from it got out this lady person with a red dress and the eyes of the future, and she said to me "Don't you worry, I'm always coming", and she caressed my cheek so I'd know that there's no need for crying for or being afraid of her. At the back seat that wasn't there was her sister, with a different dress, a blue one, and sometimes she seemed prettier but they looked almost the same. Then the lady left, leaving me with nothing more than a smell of rain at my nose and a kind of sense of purple.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pães


Servi uns pãezinhos quentes, coisa bem modesta. Com uma fila de legumes temperados e duas rodelas de queijo. Ela deve achar pouco, pensei. Mas não sabia o que mais fazer, e apostei na sedução do vapor perfumado subindo dos dois pães.

- Espero que esteja bem.
- Sim, tudo maravilhoso, obrigada. - disse-me com um sorriso que quase lhe fechava os olhos.
- Sinto muito, estou um tanto atrasada, não soube o que mais lhe fazer. Lhe compensarei na próxima refeição, sim?
- Oh, não se preocupe, não como muito mesmo. E o cheiro desses pãezinhos está fantástico!
- Então está certo. Mas promete-me avisar caso precise de algo? Diga que sim para eu ir sossegada.
- Certo, fique sossegada.
- Sim. - sorri-lhe - Até mais tarde.
- Até mais tarde. - sorriu-me de volta - E obrigada mais uma vez.

Fui para a rotina, mas aqueles benditos pãezinhos não me saíram da cabeça. Que tipo de anfitrião não se dá nem ao trabalho de preparar um prato decente? O que a moça pensaria. De fato, tudo o que já havia me perguntado antes de servi-la. Pensar que aquele sorriso que cerra os olhos fosse pura cortesia de pessoa educada me desagradava.

- Alguém aí?
- Oi? Perdão Madá, que você disse?
- Onde está sua cabeça?
- Na... Pães.
- Como?
- No negócio da casa, que te falei. Acho que não sou boa nisso.
- Deixe de bobagem, vai dar certo. Só precisa de tempo pra ajustar as coisas.
- Sim... Claro.
- Agora vê se para de se preocupar a toa e presta atenção em mim.
- Você e essa sua carência.

Cheguei no fim do dia em casa, cansada. A luz do cômodo no pátio estava apagada. Provavelmente estaria dormindo. Fui me arrumar para dormir. Tomei banho, arrumei uma série de pastas, uns cadernos e livros, as coisas no meu quarto. Quando terminei ainda tinha algo que eu sabia que não me deixaria dormir. Fui andar pela casa. Enquanto fazia um café, vi pela janela da cozinha a luz do pátio acesa. Lembrei instantaneamente dos pães.

- Sofia?

Bati de leve na janela fechada. Pela aberta pedi licença.

- Oi! Desculpa, fiz algum barulho? - ela disse com olhar de quem foi pego distraído.
- Não! Não, imagina. É só que... Bem, eu vi a luz acesa, achei que já tivesse ido dormir.
- Tem algum problema? Não consegui pegar no sono hoje, mas se estiver atrapalhando eu apago.
- Não, que isso. Desculpe, eu estou atrapalhando alguma coisa?
- Não, eu estava apenas lendo.
- Bom... eu fiz café. Trouxe um pouco, pra compensar hoje cedo. Você gosta?

Mais um sorriso daqueles.

- Claro. O que melhor pra ajudar a dormir do que café? Entra.

Ao me deitar, só pensei no que faria para a próxima refeição. Nela me dizendo que havia gostado dos pães. No meu travesseiro o perfume de roupa limpa, algo me dizia que o cheiro da casa no pátio não era mais aquele, sobre o travesseiro meu cabelo, preto, diferente do dela, que, notei, mesmo preso espalhava fios sobre os cômodos. Fechei os olhos, quase como o sorriso. Só pensei que a casa no pátio tinha outro perfume, e que tudo ao redor me dizia que ninguém deveria tirá-lo de lá, jamais.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Marcus vivia como um cara comum. Meio medroso, nunca olhava nos olhos por mais de  dois segundos e meio, sempre usava uma gravata ligeiramente apertada, tinha uma distonia que nunca lhe havia permitido desenhar quando era criança. Nunca pensava em nada próprio que achasse digno de ser dito, e nunca havia namorado.

Quando dormia, Marcus nunca sonhava, ou pelo menos não se lembrava. Em fato, quando dormia, Marcus virava Dylex Mão-leve. Ninguém sabia dizer a aparência deste, era um dos maiores ladrões de rua de todos os tempos.

Um dia, sem razão aparente Marcus parou de viver dormindo. Despertou com uma consciência voraz, um sangue morno lhe drenando o medo gota por gota.

Levantou-se e foi vestir-se com as roupas de um vizinho seu, sem que este o visse. Saiu para a rua e em meia hora arrecadou mais dinheiro que dois meses e meio de seu salário.

Apenas com o olhar, conquistou uma ruiva que havia vencido alguns concursos de beleza em seu estado, fodeu-a a menos de dois minutos e meio do primeiro contato visual.

Fumou, bebeu, riu, patinou, nos momentos em que se deixou ser visto. Bateu em algumas desavenças de Dylex, sem que estes o vissem. Ficaram também mais leves.

No fim do dia, jogou-se num salto de dois giros e meio no ar, abraçando com um sorriso as pedras do rio que corta a cidade.

Foi o único sonho de Marcus.

sábado, 15 de setembro de 2012

Capas


    Camila é aquela pessoa que sempre tem cara de estar triste ou cansada, mesmo quando está feliz, e, portanto, ninguém se preocupa de fato. Nesse momento, Camila está sentada no chão, em meio a um turbilhão de pessoas que provavelmente vão acabar pisando-a se não acharem que ela faz parte da decoração. Em meio a livros, discos, painéis e outras coisas, Camila procura A Peça, aquela coisa que ela não sabe bem o que é mas tem certeza de que pode encontrar. Mas enquanto isso ela procura alguma coisa pra levar, só por levar mesmo, e mesmo assim o faz com afinco, já tem uma pilha de possibilidades nas mãos. Ela tem a coluna flexível em posições estranhas e o nariz enfiado entre objetos de cada prateleira. Tudo são as estantes e a floresta de pernas muito próximas, sente o cheiro do jeans usado da estirada a seu lado. Seu olhar treinado passa rapidamente por capas, preços, cores e nomes, ela se levanta agilmente quando precisa passar para a próxima estante, sem atrapalhar ninguém, mas a floresta se move e o espaço é estreito,  agora da esquerda pra direita, esse não, não, não, não, hm, não, vejamos, talvez, "novo olhar sobre Odair José" - definitivamente não, esse... E um rosto, bem no momento em que desanuvia a atenção e também a vê - outra pessoa está abaixada. Sorriem-se, sem graça, da graça da cena.
- É... a gente tem que procurar bem.
- Pois é.
    De volta para a busca. Essa prateleira não é boa.
- Desculpa interromper... - A moça tem dois livros nas mãos - Ahm, você acha que eles tem cara de coisa de gente metida?
    O monte mal arrumado de Camila cai para o lado enquanto ela pensa na pergunta.
- Assim, desses livros comuns, autores famosinhos, best-sellers, coisa assim? Estou pensando em levar algum desses, mas não sei... Esse aqui parece bom, poesia. O que você acha?
- Ah, bem... Não sei, esse aqui talvez sim... É que aqui não tem coisas muito conhecidas mesmo sabe? Só uma coisa ou outra, a maioria é muito nova ou muito antiga, essa é a ideia.
- Ah, certo. Brigada.
- Nada.
    A cortina de pernas se move enquanto Camila se concentra de novo. Tinha mesmo achado os livros com a cara que a moça descreveu, mas ela parecia ter gostado deles. Não julgar um livro pela capa, pois é.
    Camila tem pequenos arranhões que não sabe de onde surgiram. Mais tarde, depois de passar pelo caixa - havia encontrado uma ou duas coisas interessantes - vê a tal moça passar com um dos livros. Camila não achou sua Peça, sempre aparecia uma coisa que a chamava a atenção, mas acabava não sendo o que ela esperava. Uma pena. Camila carrega uma bolsinha com sua compra banal, coisas boas, sim. Parece mais cansada que o habitual, talvez mais feliz.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Olhos

E ali Aira chorou. Chorou pra caralho. Como o céu todo chorasse, sua dor e liberdade a contagiaram. Ela chorou como nunca fazia, especialmente tão próxima da sua dor, que sorria junto com ela sem, claramente, perceber. A dor dela havia tempos tinha passado da agonia de roupas pequenas. Ali, naquele dia, a lua dentro dela gritava, com ganas de enlouquecer a realidade, mas Aira sorria. E nadando no aguaceiro que caía do céu, seus próprios olhos afogando, Aira ainda sorria, porque sua dor, tão linda, estava feliz.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Doce


O sorriso, máscara que mostra o rosto de sanidade enevoada.
Danika parece normal. Sadia, como diria um alguém qualquer. Parece alguém que aproveita uma boa taça a lembrar de alguma vitória passada.
Seu rosto, que agora descansa seco e suave, parece satisfeito.
Os lábios, que receberam lágrimas de uma solidão imposta, receberam-nas em relutante revolta, e depois em paz, como destino que se sela, beijou suas lágrimas, então, e sorveu sua própria amargura.
A amargura de ter sua dor rejeitada, de ser excluída do sofrimento que à ela, mais que ninguém, cabia. Penar excruciante e duplamente solitário.
Sim, havia estado lá, nos últimos momentos, em contato direto de espírito e dor, mas não de carne. Ela, antes de todos, soube quando aconteceu. E agora não podia se aproximar, se despedir, desfazer-se de sua derradeira conexão com a mais importante parte de sua vida.
Parte das cinzas do que foi sangue e calor sossega plácida no açucareiro.
Danika meche o champanhe, sorve, sorri.



Persianas

Ela passa o dedo no sapato, no brilho apagado no sapato. Seu quarto reluz a luz que lhe falta. Seus olhos estão cansados, os dedos de pura seda de Regina são frios e tensos. Ela andou, olhou, virou-se e revirou-se dentro dos calafrios que a perseguiam num incessante jogo de incesto e ódio. Quis amar, Regina era uma menina. Uma contradição de inocência e loucura. Ela foi a limpar seu armário, lá dentro, no entanto, na escura limpeza do armário de Regina, havia revolta e perdição, havia a tristeza de todas as gerações, bichos inomináveis e o pouco mais que as letras não a ensinariam. E a lucidez da menina, cansada como a penumbra que repousa inerte na sacada de seus olhos, andou passo a passo para trás da cortina de seu quarto, que fazia o silêncio da tarde. No quarto, encolhida em seu vestido, Regina toca a luz de seus sapatos.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Catherine


-   Vou limpar esse lugar e você nem vai lembrar que isso existiu!

Os olhares determinados se cruzam. Mais uma vez.

-   Escute...
-   Não!
-   Escute! O que você está fazendo?! Você não pertence mais a mim?

Safanões, respirações.

-   Você deve estar brincando!
-   Não! Não estou! Isso acabou, já não conversamos à exaustão? Você sabe! Tire os olhos daí, já disse que vou me livrar delas! Você não entende?
-   Não, você não vai.
-   Sim! Isso...
-   Não. Helena, você não vai se livrar dessas fotografias.

“Não entendo! Sim, vou!”

-   Elas são lindas.

Rostos contraídos. “O que?”

-   São Arte.

Silêncio. Sempre entremeia silêncio. A sala, as fotografias por toda a mesa de centro, forrando o tapete, Helena de regata branca, pálida.

-   São mais fortes do que você jamais vai ser.

Nem uma única palavra cruza os lábios de Helena. O silêncio faz zumbidos nos ouvidos. “Mais fortes do que eu também, estão vivas, Helena!”

-   Lúcia!

“Seja digna, se ainda te restar. Não sei o que mais há de ser, não me pergunte.” Tudo quanto Lúcia diz, sem querer.

-   Ela vai à exposição.



quarta-feira, 9 de maio de 2012


Miriam se contorcia em sua dor de magreza. Fraca, fraca e tanta dor. Michael afasta o copo de perto dela e a olha sem saber o que fazer. Ela chora, sem lágrimas. Faz um barulhos estranhos e treme sua mão até o braço dele.
- Eu deixei ela ir! Eu deixei minha filha sem uma foto!
Michael agarra o pulso dela. Ela o olha nos olhos, do fundo de sua dor.
- Ela não vai lembrar que teve uma mãe, Michael!
Em baixo da mesa sua mão alisa e realisa um papel, uma fotografia.


terça-feira, 8 de maio de 2012

- Olha, essa peninha. Guardei desde aquele tempo. Ela colocou em mim em uma apresentação.
- Mas você só tinha... o que, cinco anos?
- Eu sei Camila. Não sei bem o que eu podia querer naquela idade. Deixa eu te apresentar. Ela era incrível sabe? Era uma fada pra mim. Imagine assim: uma linda jovem de cabelos claros brilhantes e cacheados, numa sala com grandes janelas iluminadas cheia de pinturas e panos coloridos, vestida numa mistura de fada e princesa, de rosas e dourados e glitter, e com olhos radiantes capazes de amansar o mais feroz dos animais.
- Parece lindo.
- E era. Ela nos adorava a todos, até as crianças mais abusadas, nos encantava com suas histórias e sua paciência. Eu tinha uma devoção por ela. Vibrava de felicidade quando ela prestava um pouco que fosse de atenção em mim. Ia dormir ansiosa e simplesmente adorava a hora de ir pra escola.
- Alguém chegou a perceber isso?
- Não sei, talvez ela tenha percebido, ou mamãe, mas devem ter tomado como coisa comum de criança, ou devoção mestre-pupilo, e talvez fosse mesmo. Eu fiquei num estado de desolação quando tivemos que passar de turma. As primeiras séries ficavam separadas das outras. E depois mudei de colégio. Não chegou a ser um trauma, mas eu sonhava que ela vinha me encontrar, um dia.
- Nossa, Dani... Quer dizer que esse foi seu primeiro amor?
- Não sei... Mas eu amo essa peninha mais do que pessoas que eu supostamente deveria amar.

domingo, 6 de maio de 2012

A gente olha para o mesmo ponto. Aquele na janela. A gente respira do mesmo jeito. A gente também sente o mesmo vácuo tendendo a buraco negro, bem ali.
Queria que já estivéssemos prontos. Queria mesmo. Os dois. Mas não estamos, ela tinha que ver. Ela não vê.

sábado, 28 de abril de 2012

Anei

Era uma mulher difícil. Era muito só de si. Até nos outros que queria só tinha de si, no rosto dos outros tinha só um espelho, uma escora pra se ver. Ainda que algumas vezes só visse os outros. Era gentil em horas estranhas e estranha em horas comuns. Era complicada. Bonita de doer, uma beleza fácil, de porcelana chinesa. Sabia ser muito igual, se encaixar mesmo no grupo que lhe escolhia. Mas, quando não acontecia, largava todos sem dar satisfação e se pudesse não falaria com ninguém por um mês. Falava com uma certa moça, uma moça que lhe falava muitas coisas. Mas a moça e ela eram muito sós. Argumentava em silêncio, cismando o amargo como tragada, do tóxico à inconsciência. E o que dizer, se não lhe falava? Muito difícil era ela.

sábado, 21 de abril de 2012

Ice Tea

Gostava de vê-lo. Gostava de ver seus sapatos no pé da cama. Gostava de como seus cabelos caiam na testa e de como os jogava pra trás com a mão. Gostava de ver como ele bebia, e gostava também da sua bebida. Gostava como Fábio cheirava a canela e mel, e de quando ele se vestia de azul. As janelas apontavam os telhados e a rua fria de chão de pedra. Os telhados. Ele pensava em morar neles. Mas gostava de sua casa no chão, e de como Fábio estava nela.

quarta-feira, 11 de abril de 2012



se calhava de eu escorar no teu ombro, ser perto, como uma pessoa faz, eu podia
mas não consigo, acho estranho só pensar
também acho estranho ser assim, já foi tão fácil, alguma vez
então jogo pra trás a ponta do cachecol surrado dentro do meu peito
e me constranjo de ser isso

terça-feira, 3 de abril de 2012

Parecia que o dia só estava frio daquele jeito para combinar com a imagem do Natal. Ele acordara embaixo das cobertas pensando que ainda era de madrugada, o céu estava cinzento e o ar do quarto, escuro. Mas o sono, mais precisamente a falta dele, denunciava o avançado da hora, 11:30. Bufou. Enrolou-se um pouco mais antes de descer. Mesmo sem ter o que fazer ainda, arrumou-se e desceu, sentia uma força de vontade indesperdiçável. Andou até chegar no parque, as ruas, incrivelmente, nada cheias. Uma leve impaciência começando a se formar nas suas mãos que tentavam em vão se ocupar num livro. Levantou pronto pra voltar a caminhar quando seu telefone tocou. Tateou e o colocou no ouvido antes de descobrir que era uma mensagem.
"Você sabe cozinhar?"
Era Natalia. Ele sorriu. Respondeu.
"Não."
Em poucos instantes ela mandou de volta:
"Perfeito! Me encontra na cozinha."
Ele franziu o cenho. Sim, estava entediado, e sim, adorava a companhia de Natalia, mas, estranhamente ou não, não sentia vontade alguma de embarcar no programa. Mas deu de ombros e voltou a andar pelas ruas frias e claras com as mãos nos bolsos. No caminho entrou num mercado milagrosamente aberto e deu uma olhada, despreocupadamente. Depois percebeu que não ia comprar nada e saiu, quase embaraçado.
Encontrou uma Natalia muito aturdida em meio a panelas, formas, livros e milhões de outras coisas que não teve tempo de distinguir antes dela lhe lançar o mais exasperado:
   - Pelo amor de deus, me salva!
   - Como, pelo amor de deus, eu poderia fazer isso?
   - Me ajudando a carregar o jantar, pelo amor de deus. - disse com um sorriso gigantesco.
Entraram no mesmo mercado em que ele havia passado antes, o único aberto pelas bandas. Depois de anos de discursão e ponderações sobre quantidade, preço, marca e tempo de cozimento, compraram uma quantidade razoável de lazanhas, ervilhas, queijo e outras coisas para as quais ele não via um uso compreensível. Natalia falava sandices atrás de sandices, o fazendo rir, quase tagarelando tanto quanto ela. No caminho da volta toda foram conversando coisas banais e uma ânsia surda foi se instalando nele, a qual ele só percebeu perto do fim da tarde, depois de arrastar todos os móveis da sala de Natalia em meio a copos de refri e músicas ruins.
   - Como assim? Você não vai ficar pro jantar?
   - Não...
   - Mas depois de todo nosso trabalho! Ah não Ti, fica vai, eu não chamei a Marina, nem o Theo, juro!
Ele respirou fundo antes de encerrar:

   - Não vou ficar Natalia.
Ela fez uma careta antes de dizer um "tá bem".

Agora ele não sabia o que fazer. Passeou pelas ruas cheias de luzes, olhando os enfeites, até perceber alguma coisa errada. O que era...?
   - Merda.
Uma bola azul de luzes balançava ferozmente na frente da casa, soltando um rugido ao empurrar o ar pesado ao redor.
   - Tudo bem aí?
   - Claro. - respondeu um chapéu. Ao menos foi isso que ele distinguiu na janela superior.

   - Ahm, certeza?
   - Claro.
Antes daquele negócio despencar como a Torre de Pisa nunca tinha feito.
   - Ih... - disse o chapéu antes de sumir.
Instantes depois, nos quais ele ficou plantado sem saber o que fazer, apareceu pela porta uma garota no mínimo divertida debaixo do chapéu. Começou a arrastar a coisa azul para a lateral da casa. Ele tentou ajudar, ela tentou recusar, mas o negócio enganchava na grama e logo os dois estavam carregando a bola pra junto das plantas do canto. Leo, como ela se apresentou, agradeceu depois de arfar. Sem saber bem o que dizer, ele falou:
   - Bem, Leo, bolas azuis costumam cair muito da sua janela?
   - Só quando tem rapazes gentis para ajudar a me livrar das provas. - foi a resposta bem humorada dela.
Os dois riram. O telefone dentro da casa tocou e Leo correu pra dentro sem dizer nada. Parecia que ela tinha se esquecido dele ali fora, mas quando ele se preparava pra sair ela apareceu, fechou a porta e disse:
   - Topa ser um rapaz gentil outra vez?

***

   - Não você não vai precisar carregar nada dessa vez.
Ele riu um tudo bem enquanto andavam pelas ruas iluminadas e frias.


   - Então, de que estamos fugindo?
   - Não sei do que você está falando - ela respondeu sorrindo.
Eles conversaram muito e muito pouco ao mesmo tempo enquanto andavam pelas ruas, passavam por praças e lojas entupidas todas de luz e pessoas agasalhadas.
   - Ah! já sei quem você é! - disse ela certo momento. Com a expressão esperada de não entendimento dele, ela prosseguiu - Você é Boy Walter. O mocinho que nunca recebe o mérito nem a garota. E não tira fotografias.
E com isso ela riu solto, como se fosse a constatação menos passível de questionamento no mundo.
   - Deve estar errado. Eu não sou um mocinho.
   - Já sei. - ela disse e sacou algo da bolsa de couro que carregava do outro lado. Estourou um flash no olho esquerdo dele. Sorriram. Ele concordou.
   - Resolvido. Ou quase, não sei quem você é.

***

Começava a se apossar dele um sentido estranho. Um querer sem mais, a perder de vista. Enquanto debatia em sua mente o que exatamente queria, decidiu que queria um café. Nessa hora, Leo decidiu que iria por outro lado e ele acabou decidindo que queria mais acompanhá-la. Rodaram muito mais do que ele achava que jamais faria numa noite fria de feriado.
   - Alguém já deve ter te dito que você é uma garota estranha.
   - O que? Sem pergunta? - sempre bem humorada.
Ele estava ficando tonto com aquele sentido estranho que se infiltrava como o frio, questão de hábito, quis constatar. Talvez fome, ele estava com fome. Perto do fim da noite, entendeu onde esse querer estava indo. O chapéu, tudo o chapéu. Sorriu com esse pensamento descoordenado.
Ele olhou o relógio na tela do celular, era quase meia noite.
   - Vou ficar aqui perto.
   - O que acontece com o templo da bola azul de onde saímos?
   - Continua lá.
Tão tarde e nem sinal das ruas que deixaram diminuírem as luzes ou as pessoas e seus sons felizes e quentes de festividade. Entravam agora numa ruazinha fria e calma onde, depois de uma caminhada breve, ela parou na frente de uma escada e disse que ficava ali. Ele olhou bem pro rosto de Leo e lhe tirou o chapéu. Ela olhou bem pros olhos bicolor dele, sorriu, pegou o chapéu e acenou, mas não se afastaram. Um estranho qualquer que passasse aquele momento pela rua não entenderia absolutamente nada do que se passava, se ligasse para isso.

Ele caminhava devagar com as mãos nos bolsos do casaco. Era meia noite. Também pensava devagar, sem pressa. Ela havia dito seu nome e sorria.
   - Feliz Natal.



Botas velhas

Vem, me faz feliz
Vem, que não aguento mais ser independente
Vem, e vê que teus braços são meus
Vem, me faz ser mais do que metade
Vem, mas vem agora
Vem, não diz não nem mas
Vem, e me rende de tudo
Vem, pra ser tudo que eu vou querer
Vem ser tudo tudo o que vamos ser

sexta-feira, 30 de março de 2012


Gia. Tão magra. Suas roupas folgadas dançavam em seu contorno rápido. Roupas sem graça. Gia parecia... parecia quase um fantasma. Ela sorria e falava, mas as folgas de suas roupas se moviam e seus cabelos mal presos lhe obstruíam um algo que não se adivinhava. Tinha uma voz bonita, dava pra ver, altiva até, gesticulava. À certa altura, Gia levantou-se, rápida de não se perceber de onde tinha vindo, foi ter com um rapaz que estava no patamar de cima. Escorou-se e se esticou para por o rosto e os braços, que gesticulavam ágeis, ao alcance do moço. Então, nesse movimento, seu blazer preto simples, tão sem graça, retesou-se ao corpo e esticou, deixando livre uma pele limpa e clara acima da cintura da calça. E ali, naquela posição e simplicidade, Gia era linda.


Pobre Léia. Tão triste algo em mim se sente em ver tua beleza tão insuspeitada. Pálida, muito pálida, não como tua pele fosse alva, mas como alguém que passa muito tempo em silencio. Cabelos tão negros e singelos, que te emolduram tão naturalmente o rosto que, parece, nunca será feliz. Tão intensa torna-se minha mente a vaguear o olhar por tua aparência recolhida, teu pescoço longo e claro, corpo acolhido e recluso, pés juntos. Vejo-te invariavelmente de olhos baixos, olhos escuros, não de submissão, mas de algo mais profundo. E mesmo tendo teus olhos postos à altura do horizonte, ainda sinto a falta que olhos baixos fazem sentir.


O garfo suspenso logo abaixo da cabeça apoiada nas mãos, unidas sobre a boca. Mexer, arrumar, uma garfada. Aquela noite Marin jantou sozinha. Muitas mesas, nem todas cheias. Mas Marin jantava sozinha.

domingo, 25 de março de 2012

Ela era feita de medo, toda ela. Nem parecia. Era uma contradição ambulante. Uma contradição gigantesca, porém fácil, muito fácil de ler. Mas ninguém se interessa em ler nesses tempos. Podia ser mais que uma contradição, afinal, se precisa de força para viver com medo. Medo de olhos bem abertos, medo que sabia o que estava fazendo.
Ela nunca falava nada além do que o medo lhe sussurrava, e sabia, até antes que o medo lhe tomasse como essência, que se o fizesse, ele a envolveria os ombros com um braço frio, mas protetor, desculpando-a por sua besteira. E ela prometeria nunca mais fazer de novo.



domingo, 18 de março de 2012

parede

uma vez

outra

outra

outra

dói


mais uma

uma

minha testa não sangra, minha cabeça gira, o mundo gira, mais que o habitual.

a última e pressiono minha testa contra a parede

não sei que estado primitivo faz isso, mas funciona.