quinta-feira, 14 de março de 2013

Blank


Na planície dos tempos eu vivo. Não há segredo que me liberte, não há mundo. Nada é proibido e, mesmo assim, nada é meu. Na planície é silencio. Mesmo o galope é imaginário e mesmo  o imaginário é pura sombra, eco passado. Não há promessa que espere, nem desejo que arda. Na irrealidade da conquista reside meu desengano. O tempo da planície me consome. Mesmo numa brecha de anseio em que deseje uma pausa, temporária que seja, esta mesma se consome em sua própria consciência. Não há código, nem conjuro, quimera que resista. Não há palavra que salve, posto, não há com quem trocá-la. A planície engole a seco amor e resistência. Olhar e objeto. Em aborto e inércia, dissolve. Voz e mistério.
Não há segredo.

sábado, 2 de março de 2013

o gelo

Este ponto.
Este em que teu coração para.
O que cerra teus lábios. Num risco mudo, e teus olhos.
Este ponto escuro em que abraças o frio em teu peito.
Este que tu conheces. Que aprendeste a silenciar.
O que por vezes fala, por teus lábios, por vezes.
Este, mesmo ontem, foi teu e de mais ninguém.
Este, amanhã mesmo, não mais alto que teu sangue.
O mesmo que te é certeza velada.
Este que é o outro.
Este é teu.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

À busca pelo não mais ter, a um santo de madeira oca, uma permanência preenchida no amargo, um prato cheio e um peito vazio. A um nivelamento de campo, uma coragem apocalíptica, uma dose de ascórbico. À compra e venda da verdade, ao holocausto molecular, a todo tempo de vida, à lembrança perpétua. À cada tijolo no muro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Não quero mais tua boca.
De ventos fiz meu ar, em desespero, enquanto teu casulo me afoga no calor estático das coisas não ditas.
Havia feito, tempos atrás, tua boca minha sede, tua boca limpa, sorridente e teus olhos. Bebo agora meu ácido lúdico de silêncio e chuva. Bebo meu peito amargo em copo cheio e tragadas fortes. Bebo a lucidez transversa das cópias, em lógica renegada e necessária. E você, merlô e copo, esfumaça da minha vista, amarga e minha boca, em frio, em apego de fios de corda. A consideração falha em resposta ou conceito, da teoria gasta, quanto mais repulsivo melhor o vinho.
Não quero mais tua boca.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Casa dos sonhos

Frases e frases ecoam no campo de concreto. Sapatos pequenos e descoloridos das filhas das máscaras, que dançam com os rostos sempre em perfil. Um parceiro gentil após outro, cada um mais sombrio que a sombra de seus próprios parceiros, e suas vestimentas. A mão morna na luva fina, o olhar bailando pelas paredes dando as costas aos olhos. É necessário olhar o azul das paredes, o azul das cúpulas, o branco dos balaústres e vasos, o floreado dos ornamentos e vestes. Desfrutar do pálido creme dos tecidos, do pálido dos rostos, da ausência de perfumes. O rosto, suave, recebendo as mentiras em sorriso e aquiescência, o abraço à agulha fria, recriando níveis sonoros diversos para a melodia silenciosa dos quadros.
Ecoam no silêncio as frases do poeta morto, que nunca ousou recitar a vida e, mais profundamente, a morte da loucura na casa dos sonhos.