Não quero mais tua boca.
De ventos fiz meu ar, em desespero, enquanto teu casulo me afoga no calor estático das coisas não ditas.
Havia feito, tempos atrás, tua boca minha sede, tua boca limpa, sorridente e teus olhos. Bebo agora meu ácido lúdico de silêncio e chuva. Bebo meu peito amargo em copo cheio e tragadas fortes. Bebo a lucidez transversa das cópias, em lógica renegada e necessária. E você, merlô e copo, esfumaça da minha vista, amarga e minha boca, em frio, em apego de fios de corda. A consideração falha em resposta ou conceito, da teoria gasta, quanto mais repulsivo melhor o vinho.
Não quero mais tua boca.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Casa dos sonhos
Frases e frases ecoam no campo de concreto. Sapatos pequenos e descoloridos das filhas das máscaras, que dançam com os rostos sempre em perfil. Um parceiro gentil após outro, cada um mais sombrio que a sombra de seus próprios parceiros, e suas vestimentas. A mão morna na luva fina, o olhar bailando pelas paredes dando as costas aos olhos. É necessário olhar o azul das paredes, o azul das cúpulas, o branco dos balaústres e vasos, o floreado dos ornamentos e vestes. Desfrutar do pálido creme dos tecidos, do pálido dos rostos, da ausência de perfumes. O rosto, suave, recebendo as mentiras em sorriso e aquiescência, o abraço à agulha fria, recriando níveis sonoros diversos para a melodia silenciosa dos quadros.
Ecoam no silêncio as frases do poeta morto, que nunca ousou recitar a vida e, mais profundamente, a morte da loucura na casa dos sonhos.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Novo Silêncio
Me movo de pés descalços na pedra crua fria que atravessa o rio faminto de quem soturno me quer matar
De traços finos e olhos vazios no meio do nada da noite acerto em cheio a sombra da sina distinta do medo
Se de passo em passo em lento cortejo me apego na alma de odor nauseado a espera infértil e débil do novo silêncio
A esquina transforma em silvo e fumaça na sombra silente que passa nas veias e espero ao menos agora que possa morrer
De traços finos e olhos vazios no meio do nada da noite acerto em cheio a sombra da sina distinta do medo
Se de passo em passo em lento cortejo me apego na alma de odor nauseado a espera infértil e débil do novo silêncio
A esquina transforma em silvo e fumaça na sombra silente que passa nas veias e espero ao menos agora que possa morrer
domingo, 13 de janeiro de 2013
Marina e o violão
Diz, só um pouco, que teu dia foi melhor
Diz que está com saudade, que vai me fazer um carinho
Vem cá, vamos dividir um sorriso e um cobertor
Fala comigo. Sem ti meu ombro é tão sozinho
O que eu posso dizer, se estou triste?
Fala comigo mesmo assim
Me oferece teu tempo e resiste,
Que teu jeito é remédio pra mim
Se chover, ah meu bem, se chover,
Até um abraço te dou,
De largar nunca mais e saber
O que é ou não
Amor
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
De abraço
Sim, meu irmão, eu entendo você querer me ensinar a abraçar, faz pouco tempo que cheguei nesse mundo, ainda não sei bem o que fazer. Mas entenda também, irmão, que mesmo sendo nossa dor assim semelhante, a que está em meu peito agora é maior que meus braços e menor que os seus. Então me deixa só encolher no teu peito e me envolve sem igualdade, que se eu explodir, você me guarda aí dentro para me montar de novo depois. De outra vez faço como você diz, prometo.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
#030
Diz, menina, diz pra mim que estás viva. Diz de verdade que tu, menina minha, és a menina de meus olhos cegos. Diz, minha menina, olha pra mim e diz no olho que tu és minha menina dor, a forma viva do que há de alma em mim. E diz aí, minha menina, com a mão na minha, que a dor que tu és existe, que tu menina é o lindo doer a toa me dizendo que eu existo também.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Marcus vivia como um cara comum. Meio medroso, nunca olhava nos olhos por mais de dois segundos e meio, sempre usava uma gravata ligeiramente apertada, tinha uma distonia que nunca lhe havia permitido desenhar quando era criança. Nunca pensava em nada próprio que achasse digno de ser dito, e nunca havia namorado.
Quando dormia, Marcus nunca sonhava, ou pelo menos não se lembrava. Em fato, quando dormia, Marcus virava Dylex Mão-leve. Ninguém sabia dizer a aparência deste, era um dos maiores ladrões de rua de todos os tempos.
Um dia, sem razão aparente Marcus parou de viver dormindo. Despertou com uma consciência voraz, um sangue morno lhe drenando o medo gota por gota.
Levantou-se e foi vestir-se com as roupas de um vizinho seu, sem que este o visse. Saiu para a rua e em meia hora arrecadou mais dinheiro que dois meses e meio de seu salário.
Apenas com o olhar, conquistou uma ruiva que havia vencido alguns concursos de beleza em seu estado, fodeu-a a menos de dois minutos e meio do primeiro contato visual.
Fumou, bebeu, riu, patinou, nos momentos em que se deixou ser visto. Bateu em algumas desavenças de Dylex, sem que estes o vissem. Ficaram também mais leves.
No fim do dia, jogou-se num salto de dois giros e meio no ar, abraçando com um sorriso as pedras do rio que corta a cidade.
Foi o único sonho de Marcus.
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