Existem muitas pontes, muitas jornadas a se escolher. Tantas pontes e tudo o que você quer é queimar sua existência, queimar cada ponte, queimar cada gota de motivo, queimar cada pestana desse olhar maldito que te vive. Tudo o que você quer é, com sua piromania, transformar em cinzas todo Fio de Ariadne, transformar todo teu resto em fumaça e faíscas. Você quer ver queimar os olhos que ama, os olhos que odeia, os seus próprios. Queimar até lágrimas. Não te importa que já te seguissem, não te importa o caminho dos outros, nem as almas que queimaria com tua ânsia sanguínea em derrotar tuas pontes. E cada vez que atravessa uma, que cruza uma estrada, que se apóia em uma pedra, cada vez que sua existência infértil encosta e se aproveita de tudo que lhe estende a pata – fogo, fogo é seu único pensamento.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
Uma forma oscila de mim. Meu demônio tem forma feminina. Bem diante de meus olhos, sua cor turva transcende o resto, minhas mãos tocam suas formas. Tão certo sua natureza ser a minha quanto minha natureza ser a sua, certo como devemos ser feitos do mesmo movimento, assim certo, como deveria eu repudiar tal saimento? E, no entanto, como deveria acolhê-lo? Esta forma, de toque frio e vaguear certeiro, através da qual vejo o mundo das cinzas, sorri quando a olho de frente, e sorri quando quero que minha respiração não a toque. Devo eu, verdadeiramente, não merecê-la, quando, enfim, somos dois fantasmas, juntos?
Por que rezo, se muitas vezes não sei para quem estou a rezar?
Por que rezo, se muitas vezes não sei para quem estou a rezar?
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Da terra
Deito na relva, corpo estirado, meus dedos passam pelo mato macio. As pedras que brotam da vegetação a meus sentidos, fazem parte do incomodo que também sou. Quando abro os olhos, já, a cadeira que me sustenta dá vista para a janela da noite.
Minha alma vem e vai, em tempos indistintos. Segui, seguimos, num túnel feito de tempo e meia visão, como sempre deve acontecer. Agora olhei na janela e vi de um jeito que me assustou. Várias coisas passaram, certamente más e boas. Depois de ter aberto a caixa, tive medo de ter perdido a chave. Talvez a perdi, talvez. Na caixa tinham tantas coisas apontando caminhos diferentes. Mas coisas me assustam.
A cor dos olhos da minha alma tinha mudado. Sinal do fim dos tempos, diria alguma avó minha. Cascatas desaguaram nesse espelho em que vi seus novos olhos. Não sei o que dizer dessa Alexandrias Genesis, se carrego a tristeza do antigo verde, se me enfeito da alegria do âmbar, se me calo, como faço sempre. Sei que senti de novo o cheiro amadeirado de limão, o cheiro que é tão do verde, e ele ainda é meu. E vejo a beleza das palavras, a beleza agridoce do movimento castanho das palavras, este me veio com a viagem. E a tristeza de todas as cores, que está em todas as vozes.
A alma é bela. Não sei quando vem, não sei quando vai. Nem quando vou, se vou, onde fico.
Acaba o papel, fecha-se a janela, a caixa, e as pedras que ainda existem. Acabam meus olhos.
Mas os outros, ou outros ainda vêem.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
De deuses ou homens
Às vezes, desprende-se de mim um vento avulso, com enganador cheiro de novidade, e me pego abandonando, por um tempo, o véu do não pensar. Meus pensamentos, meninos ou velhos, respiram e olham, desconfiados, a luz da atenção; e as memórias sacodem as saias, lembrando como se dança.
Nessas voltas, volta e meia, volto para um par querido de olhos. Caio, então, na correnteza que é pensar, a ponto de poderem ver em meu rosto o nadar. Lembro de pedaços de ti, lembro com vagar o que da última vez sabia de cor e, daí, busco perigosamente cada parte e o todo que te completa em mim. E lembro do meu querer, da confusão que é entender o que és em mim, com todo o enturvamento de meu coração.
“Assim ela é.”, lembro; “A bela, tão incrivelmente bela”, admiro, ciente da beleza; me soa, então, à mente, numa desatenciosa flor de sentimento e anseio, “Minha bela”. Me surpreendo: “Não. Não minha, jamais minha.” Não podes ser minha de modo algum, nunca duvidei disso. Não podes por várias razões, algumas incomensuráveis de grandes, como seres feita em mim do que te alimento e não do que possivelmente és.
“Como fui pensar isso?”, e logo em seguida encontro a resposta. O fato é que a voz tola que soltou esse inocente absurdo pertence somente a uma parte de mim, mais largada e grande que pretensiosa. É ele, esse pequeno gigante, lindo ogro que me habita, ele que, por grande demais que é, te vê em tua fluidez e te quer, com demasiado carinho, e em disparate toma um pedacinho teu para poder chamá-la de sua, como um afago.
Paciência, então, com ele, que ele nada mais é senão outro cativo teu, assim como eu o sou.
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