sábado, 14 de janeiro de 2012

Seu desenho na parede

Detesto
Amo
Minha outra vida
Detesto me apaixonar por um sonho.

Antigo Manual Atros Piegas

Arrancada a mais limpa semente
Jogue-a em carne viva no chão.
Só será necessário um pequeno buraco.
Ela deve crescer sozinha.
Desenvolverá do centro para fora.
Nela serão injetadas as Leis.
Todos os teoremas, diagramas e dissertações
Postos todos os dias pontualmente
Seus venenos para a insistente praga
De filosofia poética, natural e utópica.
Dessa, já não mais, semente, deve-se espremer
Até a última gota de seus poros
E deve-se testá-la até a mais fina fibra do caule,
Que, com o tempo, poderá acabar criando
Um certo mofo anárquico.
Mas tudo bem, as Leis primárias farão efeito.
Sempre faça uma poda em suas idéias e ideais
Ou ela pode acabar destruindo a calçada
Ou o mundo.
Reprima, sempre que necessário,
A força de suas raízes.
Mas se, mesmo assim,
Ela sucumbir à arte,
Desista.
Ela virou um incontestável ser pensante.

Sabe-se lá quem
Telhados e casas pintadas
Garotas bonitas de vestido
Janelas limpas
Arvores e sucos

Uma dança uma noite
Um sol numa tarde
Um papel de recado
Uma lembrança amena

A lembrança falsa
Não é mais real nem menos
Que todos os coloridos levados
Pelo tempo e pelo sol

Nunca dançaremos juntos
Nunca te cantarei uma valsa
Tudo que veremos
Vai ser muito menos que aquele porta retrato
A valsa finda,
Tu cantas, eu choro,
A alegria compartilhada é linda,
E tua boca ao cantar fica ainda mais perfeita,
Um lábio no outro,
Lábios os quais nunca beijei,
Mas por tanto tempo desejei,
Lábios esses que por dias me criticou,
E por dias os amei mais e mais,
Então canta, mesmo que não seja para mim,
Pois em minha mente,
O canto que vem de teus lábios será sempre meu.

                            Eriko Renan

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quero arrancar essa pequena garra que aponta de mim. Essa pequena coisa cinza que sai do meu peito e fere. Meu coração não acolhe isso como à uma cria, tal útero pulsante. Essa pequena coisa, cinza, áspera e tão própria de si, nada mais é que eu, uma pequena mão acarretada de minha existencia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Anna de chapéu

Roendo de forma cuidadosamente displicente a unha, Anna mira as letras inexistentes à sua frente. Lembra-se de não parecer tão procrastinadora e desfaz-se da atividade. Apóia a cabeça na outra mão, que se apóia sobre o cotovelo, que se apóia na mesa que, por sua vez, apóia-se mais firmemente que ela toda. Olha para a garotinha loira de olhos levemente puxados.
- Não me olhe assim, Louin.
A loirinha do retrato não se move nem um milímetro. Ela ouvia o silêncio de forma abusada. Capta de novo o olhar verde da garotinha, suspira, troca a mão que apoia a cabeça. Dessa posição, o retrato de uma moça sorri para ela, meio cega pelo sol, que, ela não deixa de notar, não está tão forte assim. Angelique. Tudo sempre girara em torno dela, até os braços de Anna.
- É, é, eu sei, não é sua culpa. - diz, sem olhar exatamente pra nada, que era precisamente o lugar onde deveria estar escrevendo. - Mas eu bem que gostaria que fosse. - resmunga por fim.
Levantou, tão abruptamente que a cadeira balançou atrás dela. Buscou água, resolveu procrastinar de forma mais saudável.
Durante um tempo indeterminável, o mundo foi sugado para o fundo do copo, só o que existia era o cristal líquido que ela sorvia hipnotizada. Tanto que, como ela não havia notado isso, quando ela acabou, virou-se para frente de novo e retirou o copo do rosto tão despreparadamente que ficou tonta, toda a conexão perdida. Essa não era a idéia dela de saudável, mas acontecia.
Posicionou o chapéu confortavelmente encaixado na cabeça. De repente ela respira. Bem isso, assim, do nada, ela percebe uma respiração verdadeira, como se há muito tempo não o fizesse. Anna começa a sentir, tem que voltar para o lugar da criação. Antes de chegar na sala, pisca nervosa. Chega até a mesa dançando, estava vindo.
- Vê, Louin, que lindo! - dizia, enquanto ia sorrindo e anotando.
Mas ela não falava mesmo com a garotinha dessa vez. Era apenas reflexo, ou hábito de se dirigir à alguém, ou distração. Seja o que for, dessa vez, a loirinha também não respondeu. A resposta foi a melodia que tomou conta do lugar, de Anna para fora.
Depois de saciada, ou quase, ela suspira, sem falar com nenhuma das duas.
- É, isso não muda tudo. Quase nada. Mas ainda tá vivo.